O futuro é do trabalho digital e do “desemprego analógico”

A economia vinha se digitalizando. Mas de repente tudo mudou rápida e radicalmente. O que chamo de Pandemia Digital mudou o futuro do trabalho e do emprego definitivamente. 

Não dá para dizer que a transformação estava sendo lenta, mas tudo é relativo. Na minha percepção de quem a vinha provocando no varejo, este era um processo empurrado pelos negócios digitais. Uma venda e que precisava ser bem feita, mostrar ganhos relevantes e superar a resistência à mudança. Esse foi o tema do meu último artigo “Transformação Digital. Antes… E agora?”

Mas a Pandemia não está acelerando apenas a transformação digital. Ela tem efeitos econômicos imediatos e devastadores. Muitas empresas demitindo em massa  para sobreviver, preservando parte dos empregos que geram. Empresas que não oferecem um produto ou serviço essencial neste momento estão sofrendo. E se não o fazem digitalmente estão sofrendo ainda mais. Negócios precisam ser digitais e rápido. Não é mais uma questão de vender transformação digital, é hora de comprar. 
Mas e o emprego. E o trabalho?

Não é fácil para executivos e empresários demitirem em massa. Também não é fácil ser pego de surpresa por um evento raro como este (a que se refere como Cisne Negro) e perceber que custo fixo é um grande risco para a sobrevivência. Isso cria forças duradouras de transformação. Digitalizar e automatizar para precisar de menos gente é uma tendência que vai se acelerar. Isso destrói empregos de um lado. Empregos analógicos. Trabalhos automatizáveis. Não é uma tendência nova, mas muda a voracidade e velocidade com que isso acontecerá (ou já aconteceu). 

Dois exemplos de processos digitalizados/automatizados com mais voracidade por força da Pandemia, no setor de Food Service.

Entrega Domino’s com carro autônomo
Exemplo de uma experiência de Order Ahead sem contato físico no contexto da Pandemia.

Uma vez feito um investimento em automação, dificilmente se voltará atrás. A mudança vem para ficar. Mas será que isso cria apenas desemprego?

O Ludismo era o movimento de revolta contra a tecnologia que destruía máquinas na revolução industrial, pois elas destruíam empregos. Hoje sabemos que essa automação não foi uma vilã que gerou um desemprego definitivo e afundou a economia. O mesmo ocorrerá na Pandemia Digital. Novos negócios serão criados e outros florescerão para permitir que outros negócios se tornem mais digitais e automatizados. Será preciso produzir e entregar mais tecnologia e em massa. E isso vai criar empregos. Mas outro tipo de emprego. Empregos que não cabem para analfabetos digitais, que exigem mais qualificação. Qualificação que a maior parte da população NÃO TEM. 

Não me interpretem errado. Isso vai gerar um problema de desemprego longo e duradouro. Mas não infinito. E talvez tenhamos sim muito menos vagas de emprego em um futuro mais digital, mas não significa que haverá menos trabalho. Um atendente de balcão não vai virar um programador em poucas semanas, provavelmente nunca. Seu filho talvez seja um programador. Mas não significa que ele ficará sem trabalho. 

Negócios digitais criaram diversas novas categorias de trabalho e empreendedorismo que serão alternativas para uma massa de desempregados analógicos, se capacitados minimamente no mundo digital. Entre estas categorias estão o motorista de aplicativo, o entregador, o comprador, o microempreendedor que vende seu artesanato no Elo7 ou seu serviço no GetNinjas entre outros exemplos. A competição no entanto vai aumentar muito e não será fácil se manter com um trabalho desses também. 

Além disso, para a construção e operação dos novos negócios digitais que serão as engrenagens de uma economia movida a menos trabalho humano e mais automação e digitalização, será necessário um profissional muito mais literado digitalmente. Será necessária uma massa deles. Como?

A resposta está na outra oportunidade que vejo na Pandemia Digital. Está na aceleração da digitalização da educação. Escolas, públicas e particulares, universidades e outros negócios de educação precisaram se preparar rapidamente para este momento. E negócios de educação que já eram digitais estão surfando uma grande onda por estarem preparados. Além disso movidos pelo espírito solidário que o momento exige, surgiu uma grande oferta de educação digital gratuita de várias áreas e formatos. 

O legado? Está claro para todos que a educação digital tem várias limitações, mas pode ser MUITO abrangente e democrática. Ela pode ser a arma para educar milhões nas competências digitais que serão necessárias para evitar uma falta de trabalho (mais que uma falta de emprego) em massa. Precisamos oferecer educação de qualidade de forma democrática e acessível para milhões de pessoas que precisarão dela para trabalhar em um novo normal. 

Um problema de Hardware

Eu senti na pele. De um dia para o outro meus filhos precisavam de computadores ou tablets para poder estudar em uma realidade de pandemia. Por sorte eu tinha hardware em casa, velho e obsoleto. Deu trabalho formatar, atualizar para que tivessem uma configuração mínima para esse aprendizado digital. E quem não tem? Nem tem condições de comprar. Será necessário prover este hardware. Movimentos solidários para distribuição de hardware para quem precisa serão importantes. Precisamos de movimentos sociais, empresariais ou governamentais para isso. O mesmo para prover acesso à internet. Estes serão investimentos necessários.

A boa notícia é que o smartphone que está na mão da maior parte dos brasileiros já é mais que suficiente como hardware para muito dessa capacitação. Uma hardware maior e mais confortável pode ser melhor, ou mesmo necessário para isso. E há mais uma oportunidade aí. A indústria de hardware vinha sofrendo com um overshooting. A tecnologia disponível para os celulares já era mais que suficiente para o consumidor médio. Vender novos dispositivos para educação com uma tecnologia amplamente disponível e um custo acessível pode ir de encontro a uma grande demanda.

A Conclusão?

Mendigo pedindo esmola por QR Code

O resultado final da Pandemia Digital será uma economia mais digital, com trabalho e educação mais digitais. Não haverá espaço para analfabetos digitais. Para ilustrar o que digo, na China, mesmo mendigos recebem esmola através de pagamento por QR Code. Precisamos preparar a oferta de pessoal para uma nova realidade do trabalho. Não será uma transformação sem dor. Mas quanto antes a abraçarmos como pessoas, empresas e sociedade, mais rápido poderemos conduzir esta transição e menos dolorida será. O que você poderia fazer para ajudar?

Publicado por Fernando Taliberti

Sou um empreendedor, entusiasta de inovação e tecnologia, maníaco por livros de negócios. Adoro absorver conhecimento e usar ele para construir o novo, mas também para compartilhar escrevendo e palestrando.

2 comentários em “O futuro é do trabalho digital e do “desemprego analógico”

  1. A reflexão sobre a necessidade de hardware para todos como forma de reduzir desigualdade social é muito boa, super verdade. O que vc acha que vai acontecer com setores essencialmente baseados no contato social como shows, festas de casamento, bares e boates? Alguma saída para eles através da digitalização? Difícil, né…

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    1. Acho que eles voltarão à atividade plena, mas tomarão bem mais tempo. A questão é que a aceleração digital desta pandemia gerou e vai gerar a experimentação de novos modelos que vem para ficar. Modelos de venda e atendimento digitais, mas também de entretenimento, para ficar no seu exemplo. Não deixaremos de ter Show, mas as Lives são tão escaláveis e podem ser também bem rentáveis. Elas não vão deixar de existir quando a pandemia acabar. Mas fica mais óbvio que ir a um show e ficar enfrentando uma multidão e fila para comprar uma bebida, não é?

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