Dentro da armadura

Dentro de Armadura

Estávamos sentados à mesa de jantar, meu filho mais velho e eu, em um início de tarde. Sempre que nos sentávamos ali ele se distraía com alguma coisa enquanto eu insistentemente tentava fazer com que ele comesse. Dessa vez não foi diferente. Ele estava aéreo e desinteressado pela comida e pelo resto do que o cercava, incluindo eu. Seu aniversário de 5 anos se aproximava e precisávamos definir qual seria o tema da sua festa. Tentei puxar conversa sobre isto. Perguntei qual era seu super herói favorito. Ele levantou a sobrancelha, olhou para mim e respondeu decidido: Batman. Minha estratégia foi tão efetiva para capturar seu interesse que escolhemos o tema da festa e em seguida ele, ainda engajado, me perguntou: 

“E você papai, qual é o seu preferido?”

“Batman também, eu acho, ou talvez o Homem de Ferro” respondi, sem pensar muito. Mas logo comecei a pensar por que eu tinha respondido aquilo e não parei mais nos últimos dois anos. 

Os dois heróis têm diversos traços em comum. A primeira característica que me veio à cabeça, e que cheguei a oferecer ao meu filho como motivo da minha escolha, é que nenhum dos dois tem super poderes. Ambos são seres humanos comuns, apenas muito inteligentes (e ricos). Isso os torna acessíveis. Em teoria, qualquer um poderia se transformar em um super herói como eles. Não é preciso ser atingido por um raio, nascer em outro planeta ou sofrer uma mutação genética. 

A segunda semelhança também foi considerada positiva por mim, no aspecto de empoderamento. Os dois construíram seus “super poderes”. O Batmóvel atravessa uma parede como se ela fosse de papel e atira explosivos para assustar os criminosos. A capa do Batman permite que ele se jogue dos prédios e plane pelos ares. Já a armadura do Homem de Ferro concentra muito mais o poder. Ela pousa bruscamente, rebate os tiros de terroristas e revida derrubando-os com seus repulsores. Eu sentia profunda identificação com essa inventividade. A possibilidade de criar algo muito mais poderoso que eu talvez tenha sido a inspiração inicial para que eu buscasse o empreendedorismo como caminho. Reconhecer isso me fez perceber que há outras formas de canalizar esta inventividade e assim também me realizar. Conto um pouco mais sobre este processo neste artigo: Construir uma Casa da Árvore na varanda me transformou em um profissional melhor

A terceira é a mais sombria das similaridades. Os dois escondem o seu ser humano dentro de suas cascas. Dependendo da versão de Batman que nos venha à cabeça, seu uniforme pode parecer mais ou menos uma armadura, mas em nenhuma delas ele deixa de esconder quem é.

Por que isso é sombrio? O filme “Batman, o Cavaleiro das Trevas” traz a escuridão na fotografia e na sonoridade para que o espectador se sinta imerso na solidão obscura de Bruce Wayne. Mesmo quando está fora do uniforme, Bruce se esconde atrás do personagem bilionário machão e excêntrico. Quando o amor de sua vida está nos braços de um rival, o promotor Harvey Dent, Bruce marca uma festa em sua casa para homenageá-lo. É marcante como esconde sua vulnerabilidade chegando lá de maneira espetacular em um helicóptero de onde sai abraçado com três modelos e com um sorriso que parece de plástico. Já Tony Stark passa a se confundir tanto com o Homem de Ferro que termina o primeiro filme sem saber diferenciar os dois. É o que parece querer dizer na coletiva de imprensa em que revela: “I AM Ironman”… 

Esses heróis contribuem para reforçar um comportamento muito comum aos homens, o de se fechar e esconder suas vulnerabilidades. Se meu ídolo fosse o Hulk, talvez eu tivesse me expressado mais, mesmo que causando danos no caminho. Mas me identifiquei com uma armadura que me permite ocultar não só meus sentimentos, mas também minha identidade. E o pior é que essa mesma proteção me fazia acreditar que eu tinha super poderes! Meu trabalho era salvar o mundo e isso era mais importante que tudo. Por isso em algum momento entendi que o privilégio de ser este super herói significava que eu não tinha que fazer as compras, levar as crianças ao médico, me preocupar em dar remédios a elas, nem com os assuntos da escola. 

Quando meu filho me fez perceber tudo o que essa figura carregava de significado comecei a desmontá-la. Perceber que você está dentro de uma armadura e que você não é parte dela é o primeiro passo. Aconteceu também com Tony Stark. Ao longo dos filmes começamos a vê-lo mais vezes sem a sua armadura e mais confortável com sua real identidade, com algumas recaídas nas quais volta a dizer que “é o Homem de Ferro”. Quando ela se quebra no terceiro filme ele se vê forçado a ser Tony Stark. O sofrimento é nítido em seu rosto, então exposto, conforme se confronta com a sua vulnerabilidade, arrastando por horas aquilo que a escondia. Ao morrer Tony será enterrado como Tony mesmo, sem armadura, simbolizando o fim de um processo quase terapêutico de reencontro com seu ser humano. Para mim esse processo já dura anos e acumula muitos desafios superados e lágrimas, mas uma sensação crescente de liberdade. Hoje aproveito mais cada minuto com meus filhos, levo-os ao médico, cuido dos remédios, mas mais importante do que isso tudo, me conecto de verdade com eles em cada um destes momentos. Me mostro vulnerável e falo das minhas emoções para que sintam que podem falar das deles. 

No mundo real, homens que se vêem em uma armadura como a minha não voam, nem tem super poderes, só se aprisionam. Elas também não foram construídas só por nós, mas também pela sociedade, com uma série de padrões aos quais somos levados a entender que devemos nos adequar. Eles moldaram a maior parte das famílias até aqui. É esperado de nós que não demonstremos fraqueza nem quase nenhum sentimento. No entanto, se sairmos ferozmente destruindo as redondezas como um Hulk, provavelmente seremos vistos como machos. Devemos ser duros, fortes, autoritários, e frios. Recentemente me peguei em uma manhã silenciosa, ainda meio zonzo de sono, chamando a atenção das mães de um grupo de WhatsApp da escola por se referirem aos membros como “meninas”. A sociedade não está ainda acostumada com pais que participam da educação dos filhos.

A mesma herança social moldou as nossas empresas, cuja liderança como sabemos, está cheia de homens. Muitos deles também escondem seu lado humano e lideram com frieza e autoritarismo. Mas já está claro que o líder autoritário não é o que extrai o melhor desempenho do time. E assim vamos revertendo a tendência com uma proporção cada vez menor de homens e de armaduras na liderança.

Vou dispensar a analogia com o governo, embora talvez não houvesse melhor momento para ela.

Acordar para esta metáfora durante a conversa com meu mais velho me ajudou a acelerar uma mudança em mim. Mas também está ajudando a interromper um ciclo vicioso de gerações, contribuindo para que ele mesmo se abra mais, conheça melhor suas emoções e se conecte mais com todos à sua volta. Não é fácil. De vez em quando pergunto aos meus filhos se eles já me viram chorar. Eles dizem que não, embora já tenham visto muitas vezes. Mesmo tão novos, parece que já há um elmo invisível que os impede de enxergar isso. Mas no que depender de mim, eles não vão crescer fechados em uma armadura. Nenhuma família, nenhuma empresa, nenhum país, precisa de aspirante a super herói. Todos precisam de seres humanos. 

Publicado por Fernando Taliberti

Sou um empreendedor, entusiasta de inovação e tecnologia, maníaco por livros de negócios. Adoro absorver conhecimento e usar ele para construir o novo, mas também para compartilhar escrevendo e palestrando.

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